12 março, 2014

376 - O Porquinho


O Porquinho 
Vinicius de Moraes
 

Muito prazer, sou o porquinho
Eu te alimento também
Meu couro bem tostadinho
Quem é que não sabe o sabor que tem
Se você cresce um pouquinho
O mérito, eu sei
Cabe a mim também

Se quiser, me chame
Te darei salame
E a mortadela
Branca, rosa e bela
Num pãozinho quente
Continuando o assunto
Te darei presunto
E na feijoada
Mesmo requentada
Agrado a toda gente

Sendo um porquinho informado
O meu destino bem sei
Depois de estar bem tostado
 
Fritinho ou assado
 
Eu partirei
 
Com a tia vaca do lado
 
Vestido de anjinho
 
Pro céu voarei

Do rabo ao focinho
 
Sou todo toicinho
 
Bota malagueta
 
Em minha costeleta
 
Numa gordurinha
 
Que coisa maluca
 
Minha pururuca
 
É uma beleza
 
Minha calabresa
 
No azeite fritinha
Letras de Vinicius de Moraes


31 dezembro, 2012

375 - Há sem duvida quem ame o infinito

Foto Shark


Há sem dúvida quem ame o infinito
Há sem dúvida quem deseje o impossível
Há sem dúvida quem não queira nada
Três tipos de idealistas e eu nenhum deles:
Porque eu amo o infinitamente finito
Porque desejo impossivelmente o possível
Porque eu quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser
Ou até se não puder ser.
Álvaro de Campos

28 dezembro, 2012

374 - Crepúsculo


Foto: Shark

CREPÚSCULO

A luz do dia empalidece,
O Sol mergulha no ocidente!
- Momento amargo para quem padece
E busca alivio ao coração doente!
Penas de amor são um tormento,
Mágoas somente o amor encerra,,,
- Um grande amor e um grande sofrimento
Vão sempre de mãos dadas pela terra!
Mas já de mil milhões de estrelas
O céu de Deus todo se abrasa...
- Vou esconder a mais brilhante delas
E edificar sobre ela a minha casa!
António Feijó

373 - Vaidosa

Foto; Shark

Vaidosa

Dizem que tu és pura como um lírio
E mais fria e insensível que o granito,
E que eu que passo aí por favorito
Vivo louco de dor e de martírio.

Contam que tens um modo altivo e sério
Que és muito desdenhosa e presumida,
E que o maior prazer da tua vida
Seria acompanhar-me ao cemitério

Chamam-te bela imperatriz das fátuas,
A déspota, a fatal, o figurino,
E afirmam que és um molde alabastrino
E não tens coração como as estátuas.

E narram o cruel martirológico
Dos que são teus, ó corpo sem defeito,
E julgam que é monótono o teu peito
Como o bater cadente de um relógio,

Porém eu sei que tu, que como um ópio
Me matas, me desvairas e adormeces,
És tão loira e doirada como as messes
E possuis muito amor ... muito amor próprio.
Cesário Verde 

372 - POST - SCRIPTUM

Foto: Shark

Quando eu morrer, abram-me o peito
E, desta jaula onde houve um leão,
Tirem, o cárcere era estreito,
Meu velho e altivo coração.

Depois, sem dó e sem respeito,
Sem um murmúrio de oração,
Lancem-no assim, vai satisfeito,
À vala obscura, à podridão.

Para que durma e se desfaça
no lodo amargo da Desgraça
Por quem bateu continuamente,

Como um tambor que entre a metralha
Estoira ao fim de uma batalha,
Rouco, furioso, ansioso, ardente!
Guerra Junqueiro

371 - Está o Lascivo e doce passainho


Foto Shark

Está o lascivo e doce passarinho
Com o biquinho as penas ordenando;
O verso sem medida, alegre e brando,
Despedindo no rústico raminho.

O cruel caçador, que do caminho
Se vem calado e manso desviando
Com pronta vista e seta endireitando
lhe dá no estígio lago eterno ninho

Destarte o coração, que livre andava
(Posto que já de longe destinado),
Onde menos temia foi ferido,

Porque o Frecheiro cego me esperava,
Para que me tomasse descuidado,
Em vossos claros olhos escondido.
Luiz de Camões

19 dezembro, 2012

370 - A Portuguesa (original e completo)


Foto: Shark

I
Herois do mar, nobre povo,
Nação valente, imortal,
Levantai hoje de novo
O esplendor de Portugal!
Entre as brumas da memoria,
Oh patria ergue-se a voz
Dos teus egrégios avós,
Que há-de guiar-te à vitória!

Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela patria lutar!
Contra os Bretões
marchar, marchar!

II
Desfralda a invicta bandeira,
À luz viva do teu céo!
Brade a Europa à terra inteira:
Portugal não pereceu!
Beija o teu sólo jucundo
O Oceano, a rugir de amor;
E o teu braço vencedor
Deu mundos novos ao mundo!

Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela patria lutar!
Contra os Bretões
marchar, marchar!

III
Saudai o sol que desponta
Sobre um ridente porvir;
Seja o eco de uma afronta
O sinal do resurgir.
Raios dessa aurora forte
São como beijos de mãe,
Que nos guardam, nos sustêm,
Contra as injurias da sorte.

Às armas, às armas!
Sobre a terra, sobre o mar,
Às armas, às armas!
Pela patria lutar!
Contra os Bretões
marchar, marchar!


Henrique Lopes de Mendonça

369 - Hino da Maria da Fonte


Viva a Maria da Fonte 
Com as pistolas na mão 
Para matar os cabrais 
Que são falsos à nação 

É avante Portugueses 
É avante sem temer 
Pela santa Liberdade 
Triunfar ou perecer 

Viva a Maria da Fonte 
A cavalo e sem cair 
Com as pistolas à cinta 
A tocar a reunir 

Já raiou a liberdade 
Que a nação há-de aditar 
Glória ao Minho que primeiro 
O seu grito fez soar

368 - Já não se encantarãoos meus olhos nos teus olhos




Já não se encantarão os meus olhos nos teus olhos,
Já não adoçará junto de ti a minha dor.
Mas para onde vá levarei o teu olhar
E para onde caminhes levarás a minha dor.
Fui teu, foste minha. O que mais? Juntos fizemos
Uma curva na rota por onde o amor passou.
Fui teu, foste minha. Tu serás daquele que te ame, 
Daquele que corte na tua chácara o que semeei eu.
Vou-me embora. Estou triste: mas sempre estou triste.
Venho dos teus braços. Não sei para onde vou.
…Do teu coração me diz adeus uma criança
E eu lhe digo adeus.

Pablo Neruda


06 novembro, 2012

367 - Estátua


Estátua

Cansei-me de tentar o teu segredo:
No teu olhar sem cor - frio escalpelo,
O meu olhar quebrei-o, a debatê-lo,
Como a onda Crista de um rochedo

Segredos dessa alma e meu degredo
E minha obsessão! Para bebê-lo
Fui teu lábio oscular, num pesadelo,
Por noites de pavor, cheio de medo,

E o meu ósculo ardente, alucinado,
Esfriou sobre o mármore correcto
Desse entre aberto lábio gelado...

Desse lábio de mármore, discreto,
Severo como um túmulo fechado
Sereno como um pégalo quieto.

Camilo Pessanha



21 outubro, 2012

366 - Madrugada

Foto: Shark

Madrugada

Chegou num abraço a madrugada
Envolta em languidez tamanha
Trazendo, vinda não sei de onde
A cadência de uma sinfonia estranha

O brilho das estrelas reluzindo
Desce do céu em doce companhia
Sendo os teus olhos, a luz que alumia
Que aquece e incendeia, a minha poesia

Esta amizade que entre nós flutua
Cúmplices, vivendo de um amor antigo
Eternamente presos a uma só verdade

Embora longe sinto, estás comigo
Quero-te tanto mesmo não sendo tua
Meu terno amor, minha infeliz saudade

Susete Evaristo

365 - Manhã de Primavera




Manhã de primavera

Quando eu partir
Não quero:
Olhos chorosos nem flores na sepultura
Quando eu partir
Não quero:
Palavras embargadas nas gargantas
Quando eu partir
Que o sol brilhe em todo o seu esplendor
Quando eu partir
Que floresçam os campos e os caminhos
Quando eu partir
Que seja uma radiante manhã de primavera

Susete Evaristo

364 - Alentejo




Alentejo

Meu coração, acalma o alvoroço
Vê se sossegas um pouco no meu peito
Voltar ao Alentejo é doce encantamento
E o caminho como um mar imenso

Passado o Tejo ficamos bem mais perto
Desce já a paz dos campos sobre mim
E alegra-se o olhar quando depara
O rubro das papoilas… um jardim

Estar longe de ti um sofrimento
Que a vida me impôs, pecados meus
Saudade que me traz em desalento

Esta ânsia de rever-te terra minha
Faz-me acreditar que existe Deus
E regressar é sonho que acalento

Susete Evaristo

26 - Desejo


Desejo

Eu sinto a vida chegar
Em cada um dos teus beijos
Fale quem quizer falar
Que a vida só é vivida
Quando se morre em desejos.


Susete Evaristo
Foto: SHARK - Maio 2007

363 - Epílogo


















Julguei que na distância te esquecia…
Sem dor, sem qualquer ressentimento
Mas no tempo que passa dia, a dia
Nunca tu me sais do pensamento.

Não tenho mais prazer, ou alegria
Nem a luz do sol me dá algum alento
E o meu olhar que sempre te sorria
Só tem nos dias de hoje sofrimento 

Sempre que  lembro o jeito do teu ser
E a ternura que tinhas ao me ver
E o doce reluzir do teu olhar …

Amargo a minha desventura
Fecharam-se as portas da ventura 
Que a vida tem  só tristeza p’ra me dar.


Susete Evaristo

19 outubro, 2012

362 - A nossa casa











A nossa casa

A nossa casa amor, a nossa casa

Onde está ela amor, que a não vejo
Na minha doida fantasia em brasa
Constrói-a num instante, o meu desejo

Onde está ela amor, a nossa casa

O bem que neste mundo mais invejo ?
O brando ninho aonde o nosso beijo
Será mais puro e doce que uma asa?

Sonho... que eu e tu, dois pobrezinhos

Andamos de mãos dadas, nos caminhos
Duma terra de rosas, num jardim,

Um país de ilusão que nunca vi

E que eu moro - tão bom! - dentro de ti
E tu ó meu amor, dentro de mim


Florbela Espanca

23 maio, 2012

361 - A Dança

Foto: Shark

A DANÇA

Não te amo como se fosse rosa de sal, topázio
ou flecha de cravos que propagam o fogo:
te amo secretamente, entre a sombra e a alma.

Te amo como a planta que não floresce e leva
dentro de si, oculta, a luz daquelas flores,
e graças a teu amor vive escuro em meu corpo
o apertado aroma que ascender da terra.

Te amo sem saber como, nem quando, nem onde,
te amo diretamente sem problemas nem orgulho:
assim te amo porque não sei amar de outra maneira,

Se não assim deste modo em que não sou nem és
tão perto que a tua mão sobre meu peito é minha
tão perto que se fecham teus olhos com meu sonho.


Pablo Neruda

360 - Bençãos

Foto: Shark

Bênçãos

Bem hajas, ó luz do sol
Dos órfãos gasalho e manto,
Imenso eterno farol
Deste mar largo de pranto

Bem hajas, água da fonte,
Que não desprezas ninguém:
Bem-haja a urze do monte,
Que é lenha de quem não tem.

Bem hajam rios e relvas,
Paraíso dos pastores!
Bem hajam aves das selvas,
Musica dos lavradores!

Bem haja o cheiro da flor
Que alegra o lidar campestre;
E o regalo do pastor,
A negra amora silvestre!

Bem haja o repouso à sexta
Do lavrador e da enxada:
E a madressilva modesta
Que espreita à beira da estrada!

Triste de quem der um ai
Sem achar eco em ninguém!
Felizes os que tem pai,
Mimosos os que tem mãe!
Tomás Ribeiro





359 - Água corrente

Foto: Shark

ÁGUA CORRENTE

Água clara da corrente
Que vais tu a lamentar?
São lembranças da nascente
Ou pressa de ir ter ao mar?

Correndo, correndo,
Sem nunca parar,
Em busca do rio,
Caminho do mar,
De noite e de dia,
A água a correr,
ao rio irá dar,
Ao mar há-de ir ter.

Que dizes tu ribeirinho?
Que dizes, que eu não te entendo?
Não te cansas no caminho,
A toda a hora correndo?

Lava roupa à lavadeira,
Põe a azenha a trabalhar,
Não vás assim de carreira,
Tens tempo de ver o mar…

In Livro de leitura da 4ª. classe edição 1931

22 maio, 2012

358 - Pregões de Lisboa


Foto: Shark

Pregões de Lisboa


Manhã cedo. O sol dourado
A tudo vai dando cor:
Há já vida na cidade
Já nela se ouve rumor

Vendedores ambulantes
Começam a aparecer
Vamos lá ver, ó fregueses
O que trazem p’ra vender

Oito horas. À nossa porta
Passa agora a tia Chica
Com sua voz compassada
Apregoa: «Fava rica»

Lá vem também a peixeira
Com seu trajo pitoresco,
Dizendo: «Oh! Viva da Costa»
Ou então «Carapau fresco»

E agora, de toda a parte
Se ouve gente que apregoa,
Gritando: «Quem quer laranja,
Quem compra laranja boa?...

«Merca o cabaz de morangos…»
«Século. Noticias. Voz…»
Oh! Boa amora da horta…»
«Quem quer ameijoas p’ra arroz?»

«Erre, erre, mexilhão…»
«Oh! Pescadinha marmota…»
«Compra o raminho de flores…»
«Oh! Figos de capa rota…»

E com a lata no braço
Fresquinha qual fresco arroio,
Passa linda vendedeira,
Cantando: Oh! Queijo saloio…»

E tudo lá vão deixando,
P’la cidade, os vendedores.
Mas, para ganhar a vida
Que canseiras, que suores!

“Pregões de Lisboa”, autor anónimo in Livro de leitura da 3ª classe 1950/51



357 - Noite Fechada

Foto: Shark


NOITE FECHADA

Lembras-te tu do sábado passado,
Do passeio que demos, devagar,
Entre um saudoso gás amarelado
E as carícias leitosas do luar?

Bem me lembro das altas ruazinhas,
Que ambos nós percorremos de mãos dadas:
Às janelas palravam as vizinhas;
Tinham lívidas luzes as fachadas.

Não me esqueço das cousas que disseste,
Ante um pesado tempo com recortes;
E os cemitérios ricos, e o cipreste
Que vive de gorduras e de mortes!

Nós saíramos próximo ao sol-posto,
Mas seguíamos cheios de demoras;
Não me esqueceu ainda o meu desgosto
Nem o sino rachado que deu horas.

Tenho ainda gravado no sentido,
Porque tu caminhavas com prazer,
Cara rapada, gordo e presumido,
O padre que parou para te ver.

Como uma mitra a cúpula da igreja
Cobria parte do ventoso largo;
E essa boca viçosa de cereja
Torcia risos com sabor amargo.

A Lua dava trêmulas brancuras,
Eu ia cada vez mais magoado;
Vi um jardim com árvores escuras,
Como uma jaula todo gradeado!

E para te seguir entrei contigo
Num pátio velho que era dum canteiro,
E onde, talvez, se faça inda o jazigo
Em que eu irei apodrecer primeiro!

Eu sinto ainda a flor da tua pele,
Tua luva, teu véu, o que tu és!
Não sei que tentação é que te impele
Os pequeninos e cansados pés.

Sei que em tudo atentavas, tudo vias!
Eu por mim tinha pena dos marçanos,
Como ratos, nas gordas mercearias,
Encafurnados por imensos anos!

Tu sorrias de tudo: os carvoeiros,
Que aparecem ao fundo dumas minas,
E à crua luz os pálidos barbeiros
Com óleos e maneiras femininas!

Fins de semana! Que miséria em bando!
O povo folga, estúpido e grisalho!
E os artistas de ofício iam passando,
Com as férias, ralados do trabalho.

O quadro interior, dum que à candeia,
Ensina a filha a ler, meteu-me dó!
Gosto mais do plebeu que cambaleia,
Do bêbado feliz que fala só!

De súbito, na volta de uma esquina,
Sob um bico de gás que abria em leque,
Vimos um militar, de barretina
E galões marciais de pechisbeque,

E enquanto ela falava ao seu namoro,
Que morava num prédio de azulejo,
Nos nossos lábios retiniu sonoro
Um vigoroso e formidável beijo!

E assim ao meu capricho abandonada,
Erramos por travessas, por vielas,
E passamos por pé duma tapada
E um palácio real com sentinelas.

E eu que busco a moderna e fina arte,
Sobre a umbrosa calçada sepulcral,
Tive a rude intenção de violentar-te
Imbecilmente, como um animal!

Mas ao rumor dos ramos e da aragem,
Como longínquos bosques muito ermos,
Tu querias no meio da folhagem
Um ninho enorme para nós vivermos.

E, ao passo que eu te ouvia abstratamente,
Ó grande pomba tépida que arrulha,
Vinham batendo o macadame fremente,
As patadas sonoras da patrulha,

E através a imortal cidadezinha,
Nós fomos ter às portas, às barreiras,
Em que uma negra multidão se apinha
De tecelões, de fumos, de caldeiras.

Mas a noite dormente e esbranquiçada
Era uma esteira lúcida de amor;
Ó jovial senhora perfumada,
Ó terrível criança! Que esplendor!

E ali começaria o meu desterro!...
Lodoso o rio, e glacial, corria;
Sentamo-nos, os dois, num novo aterro
Na muralha dos cais de cantaria.

Nunca mais amarei, já que não amas,
E é preciso, decerto, que me deixes!
Toda a maré luzia como escamas,
Como alguidar de prateados peixes.

E como é necessário que eu me afoite
A perder-me de ti por quem existo,
Eu fui passar ao campo aquela noite
E andei léguas a pé, pensando

E tu que não serás somente minha,
Às carícias leitosas do luar,
Recolheste-te, pálida e sozinha,
À gaiola do teu terceiro andar!


Cesário Verde, in 'O Livro de Cesário Verde'
Tema(s): Amor Noite Ler outros poemas de Cesário Verde //

21 maio, 2012

356 - Sonho

Foto: Shark

Sonho

Sonho-te amor na madrugada:
O meu nome murmuras com doçura
A tua boca em minha boca desesperada
Teu corpo em meu corpo uma loucura

Segredas-me o amor do tempo antigo
Em silêncio guardo os meus desejos
E peço à vida apenas não me negue
O calor da tua boca teus doces beijos

Sonhei como quem sonha um poema
Sonhei como quem sonha a primavera
Desfaleço ao acordar sem teu sorriso
Choro a dor que o meu peito encerra.

Braços vazios e coração despedaçado
Tendo por companhia a pouca sorte
Sou a tristeza, a nostalgia, a saudade
E sinto em mim o gélido frio da morte

Susete Evaristo

355 - Chegou num abraço a madrugada

Foto: Shark

Chegou num abraço a madrugada


Chegou num abraço a madrugada
Envolta em languidez tamanha
Trazendo, vinda não sei de onde
A cadência de uma sinfonia estranha

O brilho das estrelas reluzindo
Desce do céu em doce companhia
Sendo os teus olhos, a luz que alumia
Que aquece e incendeia, a minha poesia

Esta amizade que entre nós flutua
Cúmplices, vivendo de um amor antigo
Eternamente presos a uma só verdade

Embora longe sinto, estás comigo
Quero-te tanto mesmo não sendo tua
Meu terno amor, minha infeliz saudade

Susete Evaristo

354 - Tela de Pintor

 Foto : Shark 

Tela do Pintor

Na imensa solidão do Alentejo
Em tardes salpicadas de saudade
Recordações de ti já tão distantes
Acodem ao meu peito tão presentes

E mesmo na escuridão da noite
Nas horas tristes deste madrugar
Qual pintor cogitando as cores
Invento a doce luz do teu olhar

Nas cores da paleta desta tela
Que teimo dia a dia em recriar
Misturo a amargura e a saudade

E vou vivendo assim da nostalgia
Desta tristeza que persiste em mim ficar
E sonho fantasias de encantar

susete evaristo

353 - Ninguém


Foto: Shark


São para ti
estas palavras meu amor
Dizer-tas desta forma
É meu castigo
Vivi,
Sonhando contigo a vida inteira
E agora que te encontrei
só posso chamar-te
Meu Amigo.

18 fevereiro, 2012

352 - Arco da Velha

Foto: Shark
Arco de vella

Arco de vella, arco de vella,
ponnos o ceo limpo e azul.
Arco de vella, riso das nubes,
as sete cores fillas da luz.

A vermella está no viño,
nos beizos e nas cereixas,
nas fazulas dos rapaces
e nas feridas das guerras.

Vive a laranxa no lume,
parte o nome coas laranxas,
tingue o cabelo do sol
cando o sol toca as montañas.

A amarela anda no mel,
no millo e mais no centeo,
no sol e nas bolboretas,
nas follas que tira o vento.

Corre a verde polos prados,
repousa nas matogueiras,
está na pel das mazás,
vive no limo das pedras.

Azul e anil van no mar,
as dúas son mariñeiras.
Azul gusta de voar
e case toca as estrelas.

Violeta anda nas flores
e recende coma elas.
É unha cor moi delgadiña,
case se perde na néboa.
Marica Campo, Lourdes Maceiras, Helena Villar Janeiro

31 janeiro, 2012

351 - Poeminha do contra ou.... Talvez não!


Poeminho do Contra

Todos esses que aí estão
Atravancando meu caminho,
Eles passarão...
Eu passarinho!
Mário Quintana

350 - Felicidade


Onde estás Felicidade

Que nunca te encontrei

A tantos já ouvi

Falar tão bem de ti

Mas se és boa não sei

Onde estás Felicidade

Que não te chego a ver

Cruzaste já por mim

Mas nem sequer assim

Te deste a conhecer

À minha porta um dia

Bateste que alegria

Por saber que me procuravas

Feliz só por te ouvir
Correndo fui abrir

Mas tu já lá não estavas

Quantas vezes perguntei

Como és Felicidade

Sentir-te quem me dera

Eu estou à tua espera

Felicidade onde estás?

12 janeiro, 2012

349 - FUMO


Fumo

Longe de ti são ermos os caminhos,
Longe de ti não há luar nem rosas,
Longe de ti há noites silenciosas,
Há dias sem calor, beirais sem ninhos!

Meus olhos são dois velhos pobrezinhos
Perdidos pelas noites invernosas…
Abertos, sonham mãos cariciosas,
Tuas mãos doces, plenas de carinhos!

Os dias são Outonos: choram… choram…
Há crisântemos roxos que descoram…
Há murmúrios dolentes de segredos…

Invoco o nosso sonho! Estendo os braços!
E ele é, ó meu Amor, pelos espaços,
Fumo leve que foge entre os meus dedos!…


Florbela Espanca

13 dezembro, 2011

348 - O Poeta e a Rosa



Ao ver uma rosa branca
O poeta disse: Que linda!
Cantarei sua beleza
Como ninguém nunca ainda!

Qual não é sua surpresa
Ao ver, à sua oração
A rosa branca ir ficando
Rubra de indignação.

É que a rosa, além de branca(
Diga-se isso a bem da rosa...)
Era da espécie mais franca
E da seiva mais raivosa.

- Que foi? - balbucia o poeta
E a rosa; - Calhorda que és!
Pára de olhar para cima!
Mira o que tens a teus pés!

E o poeta vê uma criança
Suja, esquálida, andrajosa
Comendo um torrão da terra
Que dera existência à rosa.

- São milhões! - a rosa berra
Milhões a morrer de fome
E tu, na tua vaidade
Querendo usar do meu nome!...

E num acesso de ira
Arranca as pétalas, lança-as
Fora, como a dar comida
A todas essas crianças.

O poeta baixa a cabeça.
- É aqui que a rosa respira...
Geme o vento. Morre a rosa.
E um passarinho que ouvira

Quietinho toda a disputa
Tira do galho uma reta
E ainda faz um cocozinho
Na cabeça do poeta.

Vinicius de Morais

10 outubro, 2011

347 - Lisboa velha cidade



Pelas velhas ruas de Lisboa
Perdi-me
Velhos casarios
Velhas Histórias
Velhas Poesias
Aglomeram-se

Na taberna
Encontro Pessoa
O'Neill, Cinatti,
Nobre, Florbela,
Camões....

O Tejo é azul...
Colore meus tristes olhos
e inunda de amor
a minha vida vazia,
e tudo o mais,
não é vã filosofia,
é poesia
e alegra-me o dia

O rio que passa em minha cidade
leva o meu destino,
leva o meu fado
a mares nunca dantes navegados.


Nelson Tangerini

04 maio, 2011

346 - Homenagem

Um Cão de cá...

Cão não é Gato
De facto cão é quase gente
mas não mente.
Também não é Leão
Não
Mas no essencial
a coragem é igual
Cão é de homem
Já viu homem puxando gatinho pela trela?
Gato é de mulher!
Já viu mulher segurando mastim?
Tem assaltante em casa?
Cão enfrenta!
Gato?
Nem tenta.
Gato é companhia...
Que mia.
Cão é muleta de invisual!
Mas que animal
Cão te adora
Não explora,
Como gato egoista e maltês
Que já fugiu outra vez!
Meu cão meu amigo.

Jorge Santiago

Foto: Charquinho

20 abril, 2011

345 - Identidade

























Foto: Shark



Identidade



Matei a lua e o luar difuso.
Quero os versos de ferro e de cimento.
E em vez de rimas, uso
As consonâncias que há no sofrimento.
Universal e aberto, o meu instinto acode
A todo o coração que se debate aflito.
E luta como sabe e como pode:
Dá beleza e sentido a cada grito.

Mas como as inscrições nas penedias
Têm maior duração,
Gasto as horas e os dias
A endurecer a forma da emoção.



Miguel Torga, in 'Penas do Purgatório

344 - Viagem



















Foto: Shark

VIAGEM

É o vento que me leva
O vento luzitano
É este sopro humano
Universal
Que enfuma a inquietação de Portugal
É esta furia de loucura mansa
Que tudo alcança
Sem alcançar
Que vai de céu em céu
De mar em mar
Até nunca chegar
E esta tentação de me encontrar
Mais rico de amargura
Nas pausas de ventura
De me procurar.


Miguel Torga

19 abril, 2011

343 - Rosa

















Foto: Shark


“Tu és a forma ideal
Estátua magistral oh alma perenal
Do meu primeiro amor, sublime amor
Tu és de Deus a soberana flor
Tu és de Deus a criação
Que em todo coração sepultas um amor
O riso, a fé a dor
Em sândalos olente cheios de sabor
Em vozes tão dolentes como um sonho em flor
És láctea estrela
És mãe da realeza
És tudo enfim que tem de belo
Em todo resplendo da santa natureza”




Pixinguinha e João de Barro

10 março, 2011

342 - Pôr do sol Alentejano
























A Terra à Beira da Noite

Com o vagar da sombra da lonjura
que a tarde entorna sobre o descampado,
a distância prolonga-se e perdura
para além deste tempo limitado.

Vem de longe o aroma a terra pura
repetir as lavoiras do passado
e eu sou a mais estranha criatura
sobre a terra que sonha o céu estrelado.

O poente põe luzes na cidade,
mas a cidade nem sequer supõe
a luz dolente que o poente encerra.

Nada me sei, todo me sinto e há-de
ser sempre assim que o sol quando se põe
me põe a mim a prolongar a terra.

Martinho Marques
Foto: Shark

12 dezembro, 2010

341 - Metamorfose

Foto: Shark

Metamorfose

Odeio SIM! 
Odeio o amor!
O amor é peçonha, é reles
O amor é amargo como o fel.
O amor mente, é ilusório,
É ridículo e cruel.
O amor fere, o amor mata!
O amor não existe!
É uma trapaça!
VIVA O ÓDIO
Elejo-te bastião da minha vida
Odeio tanto quanto já amei
Odeio as pessoas e tudo quanto existe
Odeio a vida e tudo o que ela encerra
O-D-E-I-O – M-E
Mas sinto que renasço e me renovo,
Em cada dia,
Em cada  ÓDIO.

Susete Evaristo

13 outubro, 2010

340 - Garça Real

Foto: Shark

Garça Real

Ó garça que agora moras
Na mesma casa que eu
onde estou eu também tu
consideras tudo teu

Ó garça que voas alto
e entre as nuvens perpassas
lá em cima é só passeio
ou alguma coisa caças?

Ó garça que me acompanhas
em horas de solidão
és tão meiga como um gato
e tão fial como um cão

Só tens um grande defeito
ás muito desconfiada
quando vem alguém a casa
ficas logo desconfiada

Ó garça não tenhas medo
que ninguém te fará mal
desejam é fazer festas
à minha garça real

por agora aqui termino
este meu canto corrido
E mais não digo p´ra que ele
não seja muito comprido.

Elviro Rocha Gomes
Poeta popular

339 - Ovelha tosquiada

Foto: Shark

Ovelha tosquiada

Tosquiaram a ovelha.
Parece uma velha.
Tão lisa e tão fria
parece uma rã.
Umas mãos hábeis
roubaram-lhe o garbo
tirando-lhe a lã.
Assim ficou nua
no meio do prado.
Anda vaidade
passeando na rua
com lã que era sua.
E ela anda nua.

Elviro Rocha Gomes
(poeta popular - Faro)

07 outubro, 2010

338 - Espelho de Outono

Foto - Shark

Voz de Outono

Ouve tu, meu cansado coração,
O que te diz a voz da Natureza:
— «Mais te valera, nú e sem defesa,
Ter nascido em aspérrima soidão,

Ter gemido, ainda infante, sobre o chão
Frio e cruel da mais cruel deveza,
Do que embalar-te a Fada da Beleza,
Como embalou, no berço da Ilusão!

Mais valera à tua alma visionária
Silenciosa e triste ter passado
Por entre o mundo hostil e a turba vária,

(Sem ver uma só flor, das mil, que amaste)
Com ódio e raiva e dor... que ter sonhado
Os sonhos ideais que tu sonhaste!» —
Antero de Quental, in "Sonetos"

04 agosto, 2010

337 - Marco do Correio

Foto: Shark

Marco do Correio

Minha rua sossegada
Tem á beira do passeio
A coisa mais engraçada
Que é o marco do correio

Marco do correio
De portinha ao centro
Não sabes, eu creio
No que tens lá dentro

Quantas raivas e desejos
Mil respostas e perguntas
Quantas saudades e beijos
E quantas lágrimas juntas

Marco do correio
Deixa-me espreitar
Deixa que eu não leio
Nem vou divulgar

Vá lá, não fiques zangado
Deixa-me ver, por favor
A carta que tens ao lado
A carta do meu amor

Frederico de Brito / Alberto Ribeiro

31 maio, 2010

336 - A apanha do feno

Foto: Shark
Lembranças da minha infância
Está a chegar o fim de Julho Embora o tempo seja ameno É altura de ceifar o feno E o centeio para debulho
O camponês pega na gadanha,
Ceifa o feno com desembaraço Enquanto outro, no seu encalço, Junta a braçada que amanha
E o feno assim exposto ao ar Bem estendido e acamado Fica mais uns dias no prado Para amarelecer e secar
Revolve-se uns dias depois
Para voltar a ser espalhado Quando já seco é enfeixado E levado no carro de bois Trazem-se os “nagalhos” do lar Feitos de palha de centeio Põe-se o feno no entremeio E é só torcer e apertar
Os carros trazem os varais
Para segurar bem a carrada Que depois de bem apertada Ainda consegue levar mais
E a pujança do camponês
Alçando mais feno nas forquilhas Carrega ainda algumas pilhas E aperta as cordas de vez
Depois é um ver se te avias
Corro para trepar E lá no cimo bem aninhada Gravo na memória belos dias!...
Gina Ferro

09 maio, 2010

335 - Natureza Feiticeira

Foto: Shark

Natureza Feiticeira

A Natureza, contém feitiços!
É um turbilhão que nos acalma
É sombra, penumbra, luzes, viço
Pleno deslumbre para a Alma

Deleita o olhar a planura
Numa vastidão que o alonga
E como o alaga de ternura
A montanha que o ensombra

O mar bravo e tempestuoso
Embala o sono da criança
Assim, o recife escabroso
Produz ânimo e esperança

Oh! Sortilégios da Natureza
Que com tal ímpeto aquieta
E com sua calma e singeleza,
Que intensos vendavais desperta!

Georgina Ferro

28 fevereiro, 2010

334 - Teorias

Foto: Charquinho

Relatividade


Um Quociente apaixonou-se
Um dia
Doidamente
Por uma Incógnita.
Olhou-a com seu olhar inumerável
E viu-a, do Ápice à Base...
Uma Figura Ímpar;
Olhos rombóides, boca trapezóide,
Corpo ortogonal, seios esferóides.
Fez da sua
Uma vida
Paralela à dela.
Até que se encontraram
No Infinito.
"Quem és tu?" indagou ele
Com ânsia radical.
"Sou a soma do quadrado dos catetos.
Mas pode chamar-me Hipotenusa.
"E de falarem descobriram que eram
O que, em aritmética, corresponde
A alma irmãs
Primos-entre-si.
E assim se amaram
Ao quadrado da velocidade da luz.
Numa sexta potenciação
Traçando
Ao sabor do momento
E da paixão
Rectas, curvas, círculos e linhas sinusoidais.
Escandalizaram os ortodoxos
das fórmulas euclidianas
E os exegetas do Universo Finito.
Romperam convenções newtonianas
Mais que um lar.
Uma Perpendicular.
Convidaram para padrinhos
O Poliedro e a Bissectriz.
E, enfim, resolveram casar-se.
Constituir um lar.
E fizeram planos, equações e
diagramas para o futuro
Sonhando com uma felicidade
Integral
E diferencial.
E casaram-se e tiveram
uma secante e três cones
Muito engraçadinhos.
E foram felizes
Até àquele dia
Em que tudo, afinal,
se torna monotonia.
Foi então que surgiu
O Máximo Divisor Comum...
Frequentador de Círculos Concêntricos.
Viciosos.
Ofereceu-lhe, a ela,
Uma Grandeza Absoluta,
E reduziu-a a um Denominador Comum.
Ele, Quociente, percebeu
Que com ela não formava mais Um Todo.
Uma Unidade.
Era o Triângulo,
chamado amoroso.
E desse problema ela era a fracção
Mais ordinária.
Mas foi então que Einstein descobriu a Relatividade.
E tudo que era espúrio passou a ser
Moralidade
Como aliás, em qualquer
Sociedade.
(autor desconhecido)

16 fevereiro, 2010

333 - Carnaval

Foto: Charquinho; Poema daqui

Carnaval
La stagion del Carnovale
tutto il Mondo fa cambiar.
Chi sta bene e chi sta male
Carnevale fa rallegrar.

Chi ha denari se li spende;
chi non ne ha ne vuol trovar;
e s'impegna, e poi si vende,
per andarsi a sollazzar.

Qua la moglie e là il marito,
ognuno va dove gli par;
ognun corre a qualche invito,
chi a giocare e chi a ballar.

13 fevereiro, 2010

332 - Formigas

Foto: Shark
Minuciosa formiga

Minuciosa formiga
não tem que se lhe diga:
leva a sua palhinha
asinha, asinha.

Assim devera eu ser
e não esta cigarra
que se põe a cantar
e me deita a perder.

Assim devera eu ser:
de patinhas no chão,
formiguinha ao trabalho
e ao tostão.

Assim devera eu ser
se não fora
não querer.

Alexandre O'Neill

19 dezembro, 2009

331 - Batentes

Foto: Shark
UM LEÃO LADEIA

Um leão ladeia
as portas do teu ânimo de ferro
Séculos e séculos esbatem
o relevo das garras
nas esferas de pedra
Quem o olha imobiliza-se
vendo-o com uma esfíngica
expressão de antiguidade
Nos globos oculares que a areia corroeu
há mesmo um gladiador espelhado
E nem a juba se acama, dócil
à ideia de que a tua mão acaricia
Um leão ladeia
as portas do teu ânimo de ferro.
Sebastião Alba